sábado, 5 de abril de 2014

Gilberto Braga fala sobre "ÁGUA VIVA" em entrevista a Playboy em 1980

Atualmente em exibição no Canal Viva, a novela "Água Viva" está em seus últimos capítulos e vem fazendo muito sucesso entre os internautas. Aqui, posto uma entrevista que o autor Gilberto Braga concedeu à revista Playboy no final da novela.

Data de Publicação: 3/8/1980

POR QUE 'ÁGUA VIVA' TERMINAR ASSIM

Depoimento de Gilberto Braga, o autor

Para Gilberto Braga, "final de novela é festa, coisa muito pra cima, mensagens de esperança, Punições para as safadezas, recompensas às qualidades, mais ou menos como gostaria que acontecesse na própria vida". O amor é o grande vencedor da história. Lígia e Nelson, Janete e Marcos, Sandra e Bruno, Edyr e Márcia, Irene e Marciano, todos juntos e felizes. Kléber é preso. Stela se realiza no palco. Suely fica só, "mas numa boa". Lourdes também, "mas numa péssima". É o seu castigo. Gilberto sabe que a realidade nem sempre é assim, mas não se importa: "o público conviveu com essa gente toda por sete meses e eu não acharia justo fazer um final comprometido com o realismo e contrariando a expectativa popular. Só espero ter acertado, em termos de sacar o que o público queria ver". Sua maior dificuldade agora: "conseguir viver sem todas essas pessoas que trabalharam comigo. Vou ficar morrendo de saudades".

- Por que a Lígia, que rompeu tanto com os padrões clássicos da heroína, termina bem, feliz, com o homem que sempre quis?

- Explico na novela, citando Molière. Penúltimo ou último capítulo. O que eu quero dar de toque, prefiro dar no decorrer da novela. No final, acho que tem que ser muita festa, fantasia, esperanças, essas coisas. O público não suporta final pra baixo e eu quero agradar.

- É verdade que alguns personagens - como Miguel, Stela, Lígia e Lourdes - foram baseados em figuras conhecidas da nossa sociedade ou personagens de filmes e peças famosas?

- Em parte sim. Em cada personagem há elementos de três, quatro pessoas que eu conheço, muito de mim mesmo e, às vezes, uma boa dose de personagens de ficção. A Lourdes, por exemplo, é a mistura de mulheres amigas, o lado Lourdes Mesquita do próprio Gilberto e da madras. ta da Branca de Neve.

- O amor de Irene e Marciano teve a intenção de servir de alerta à nossa sociedade, que normalmente marginaliza os velhos?

- Teve, só que ficou num nível muito superficial. Ficou gostoso, atores ótimos, mas eu gostaria muito de voltar ao assunto com mais densidade e fazer um dia, em novela, pelo menos um terço da coisa bonita que o Cacá Diegues fez no cinema, em "Chuvas de verão".

- A Janete, tão racional, não teria extrapolado um pouco a realidade, tomando-se uma chata?

- Ouço muita gente dizer isso, então deve ser verdade. Pessoalmente, confesso que nunca escrevi achando-a chata. Ela defendia sempre valores em que eu acredito. Claro que uma personagem que questiona e briga é menos agradável de se ver do que, por exemplo, a Stela.

- Qual o personagem que você mais gostou de criar e qual o que não gostou, ou gostou menos? E com qual deles você mais se identificou?

- Gostei mais de Stela, Lourdes e Marcos. Tive uma certa dificuldade com o Evaldo, e o Manoel Carlos ajudou muito, porque ele entrava com mais facilidade na linha cômica que o Mauro Mendonça deu ao papel. Identificação minha existe praticamente com todos os personagens, desde o Marcos até a Lourdes. Tirando os secundários, todos eles têm uma área comum comigo.

- Você acha que as mulheres brasileiras são mais Vilma, a dona de casa submissa; Celeste, reprimida e omissa; Ligia, interesseira; ou Suely, a ex-suburbana boazinha?

- Vai parecer que estou fugindo da pergunta, mas com toda a honestidade, acho que tem de tudo. Parece-me justamente uma das maiores qualidades da novela o coquetel de mulheres brasileiras que eu consegui juntar. Não esquecendo a precocemente falecida Luci, eu tenho impressão que não ficou faltando nenhum tipo de mulher brasileira da classe média e alta, da cidade grande, claro, em "Água viva".

- Sandra e Janete são representantes reais da nossa juventude?

- Acho que sim. Da juventude mais saudável, que é a que eu curto.

- Por que o Kléber foi o assassino? Não ficou um pouco redundante, ou pouco criativo?

- Não sei. Bolei a historinha para isso. Acho imaginativo e o que atrapalhou muito foi isso ser tão divulgado, antes mesmo de eu ter começado a preparar a morte de Miguel. Na minha cabeça, seria uma surpresa. Arredondaria a novela. Mas corno em história e imaginação não sou mesmo muito forte, vai ver, foi uma bobagem.

- Quando você começou a novela, imaginava que ela terminaria assim? Houve muitas mudanças?

- Não. A não ser no caso do crime e a relação entre Nelson e Miguel, que havia bolado vagamente antes de começar. O resto fui criando aos poucos, com ajuda do Maneco, ouvindo amigos, a própria Leonor Bassères, que adaptou o romance. Aí é que está o gostoso da obra aberta. Não vale a pena prever coisas demais. Eu nunca tinha topado tanto a obra aberta quanto em "Água viva".

- Jader e Marcos. Como você vê esses dois exemplos de segmentos da Juventude: diferença pura e simplesmente de classe social?

- Olha, eu não me sinto à vontade para falar do Jader. Foi um personagem que não resultou, só existiu porque o Jorge Fernando é um ótimo ator. Foi para lá, foi para cá, era desses personagens de novela que variam ao sabor da trama, uma falha. O Marcos, como já disse outras vezes, é a minha idealização de ser humano. Tudo que eu acho que é qualidade eu coloquei no Marcos. E ninguém melhor que o Fábio Júnior para fazer um personagem assim.

- Foi por isso que o Jader não cresceu, não teve uma dimensão maior dentro da novela?

- Havia personagens demais e eu não podia desenvolver todos. Erro de estrutura. Muita gente. Se eu desenvolvesse todos, não daria para continuar. Houve um momento, lá pelo capítulo 80, em que eu tinha vontade de dividir os personagens em três grupos e fazer três novelas diferentes. Jader, Bete, Clarice, Mary, Celeste, Heitor, Selma e tantos outros personagens não desenvolvidos. Não dava. Vou tentar melhorar. O mais frustrante para mim mesmo que escrevia, é que os atores são todos muito bons.

- Gente rica se diverte tanto assim como na novela? Por que foram tão raras as festas dos pobres ou da classe média?

- Alguns ricos vão a muitas festas sim. Nem todos. O Miguel e Luci, por exemplo, iam a poucas. Festa de pobre eu já escrevi muito em "Dona Xepa". Nessa novela não estava com vontade, na próxima talvez eu faça de novo, aquelas mulheres chegando e trocando de sapatos para ficar mais à vontade... Também gosto muito. Festa em novela é ótimo, junta os personagens, a gente bota dois para bater boca num quarto e os outros ficam agitando na sala, gosto demais.

- Qual a sensação que você sente quando acaba de matar um personagem e como você reage escrevendo essas cenas?

- Muito mal. Morte é um problema muito pouco resolvido na minha cabeça. Tônia Carrero, por exemplo, foi testemunha. No dia em que eu escrevi a morte de Luci, fui a um jantar em homenagem a ela na casa do Ivo Pitanguy. Estava tão tenso que me deu pânico e eu não tinha coragem de voltar sozinho. Pedi à Florinda Bolkan para vir seguindo o meu carro. Miguel eu matei de madrugada. Escrevi a cena em que o Edyr ouve o tiro. Parei para fumar um cigarro, tentar relaxar, cismei que ouvi um tiro perto de casa, acho que foi tiro mesmo, fui para a janela, uma transação muito angustiante. Até a morte do Sérgio, que eu fiz em elipse, me tocou pra burro.

- Então por que tanta morte?

- Eu preferia que não existisse, gostaria que fôssemos todos imortais. Mas enquanto eu ia matando personagens de "Água viva", na vida real, durante sete meses, eu juro que morreram mais pessoas queridas minhas do que na novela.

- Quais teriam sido as mensagens explícitas e implícitas de "Água viva"?

- E coisa demais para eu poder relacionar, porque é tudo o que está na minha cabeça. Outro dia, aqui no GLOBO, o Artur da Távola publicou uma relação bacana, enviada por um leitor inteligente. Só não concordei com uma afirmativa: que Paris seria o centro cultural do mundo. Eu acho que, no momento, quem está com a bola toda é Nova York mesmo. Aliás, disse na novela: ''Firenze dos quatrocentos". Era uma fala do Kléber, que por ser assassino não deixa de ser filho de Deus e, eventualmente, porta-voz do autor.

- gora que a novela chega ao final, qual o resultado na sua balança particular: vencem os saldos positivos ou negativos?

- Vencem os positivos. Acho que estou aprendendo, foi legal escrever, continuo na profissão e me parece que tenho chance de melhorar.

- A interpretação da Betty Faria teve alguma relação com as mudanças da Lígia?

- O ator sempre influencia. Mas a Lígia que não estava agradando era a que eu escrevia, porque a Betty foi um brilho só, de ponta a ponta. Vou morrer de saudades da sua voz, da sua cara, acho uma mulher fascinante.

- Você não acha que os problemas de Maria Helena durante a novela - ameaça de sair do orfanato, morre Lucy, vai para casa de Márcia, participa dos problemas dos pais adotivos, depois encontra o verdadeiro pai - seriam suficientes para que ela estivesse agora nas mãos de, no mínimo, uma equipe de psicólogos, ou ela é uma garota maravilha?

- Garota maravilha ou personagem mal escrita, como quiserem. Claro que não foi uma personagem que eu tenha criado direito. Uma bobagem. Se eu só tivesse escrito Maria Helena, estaria morrendo de vergonha. Não ia nem esperar o final da novela no Brasil, ia fugir. Felizmente, havia outras personagens mais próximas do real.

- Dos romances, qual o preferido?

- Acho que o de Marcos e Janete, embora eu tenha cometido um erro de estrutura. A história deles terminou lá pelo capítulo 40. Quando se encontraram, já eram personagens resolvidos demais, como pessoas. O Marcos, principalmente, é muito a minha idealização de pessoa legal. Acho que ficou redundante: só de "Romeu e Julieta" na base de mais de cem capítulos, não dá!

- Qual a sua explicação para o sucesso de Raul Cortez junto ao público feminino? Você esperava isso quando ele foi convidado?

- Esperava. Se não tivesse feito as mulheres gamarem por ele, eu ia ficar muito frustrado. Puxa, um ator bonito, charmoso, num personagem praticamente sem defeitos, humano, boa praça, só podiam gamar mesmo.

- Stela e Lourdes, duas mães solitárias. Por que?

- Não acho tanta solidão assim não. Na vida eu vejo muito mais. A relação da Stela com o filho é linda. A da Lourdes não poderia ser, dada a carga de doença dessa mulher tão fascinante. Mas, para Lourdes Mesquita, até que eu acho bem tratada pelos filhos. A Márcia tem carinho até o final. E o Marcos só rompeu quando não dava mais mesmo. Acusam-me muito de mostrar coisas erra as. Acontece que coisas certas e muito equilíbrio não dão história. Eu mostrei uma família bacana, equilibrada, que era Miguel, Lucy e Sandra, no início. Mas, só pude fazer isso porque Ia desmoronar tudo com a morte da Lucy no capítulo 22. Tenho certeza que com mais 10 capítulos no ar, iam começar a achar a Lucy urna chata, porque gente de cuca boa, sem problemas, repito, não dá novela.

- Por que praticamente todos os homens - como o Evaldo, Nélson, Edyr e Alfredo - foram mais frágeis do que as mulheres?

- - Não sei. E uma limitação minha como escritor, que eu venho tentando superar. Mas acho, por exemplo, que, em comparação a "Dancin'Days", o desequilíbrio já não foi tão grande. Quem sabe um dia eu não chego lá?

- A solidão foi o fio condutor de quase todos os pergonagens. É essa a realidade que você vê na sociedade contemporânea?

- Não sei responder isso a nível racional, assim. Escrevi o que eu senti. Dizer acho, não acho, só com mais uns 10 anos de análise e vivência. Eu sou muito jovem para ter visão clara e global das coisas.

- Por que a Beatriz Segall e a Tônia Carrero trocaram de personagens no início da novela?

- Porque tinham cada urna vontade de fazer a personagem da outra. Pediram para trocar e nós, as pessoas envolvidas, achamos que seria uma boa. E foi uma ótima, não foi?

- Por que a escalação não foi assim desde o início?

- Porque eu escrevi a Stela pensando na Segall. E a Tônia entrou para o elenco depois. Lourdes foi a personagem mais difícil na hora da escalação: nós tínhamos a Segall ali e ninguém pensou nela. E a história do óbvio ululante do Nelson Rodrigues.

- Havia intenção de mostrar através do Edyr o problema do professor? Caso positivo, por que aos poucos lago foi desaparecendo?

- O Edyr, representante de uma classe, eu acho que entra na razão direta da participação do Maneco. Mas, nos capítulos finais eu retomei um pouco isso e até deu cenas que eu acho interessantes. Edyr e Márcia foram muito escritos pelo Maneco, os seus queridinhos mesmo, eu acho. Assim como a minha queridinha era a Stela, que eu não queria nunca que o Maneco escrevesse, tinha ciúmes. Nós rolamos de rir com essas coisas, os dois, mas pintaram mesmo na divisão de trabalho, tinham que pintar.

- O dinheiro foi a mola mestra em "Água viva". Você dá tanta importância assim ao dinheiro?

- Claro que não, eu estou até pensando em fazer voto de pobreza. Mas eu sempre tive vontade de escrever uma novela assim, inteiramente de ficção, passada num mundo em que as pessoas fossem superligadas em dinheiro.

- E agora? Quais não seus planos?


- Vou para Nova York. Lá, pretendo descansar e me divertir muito. Mas também sei que vou ficar morrendo de saudades de todos os que comigo fizeram o sucesso de "Água viva".

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Os pseudo-Moralistas-Demagogos e a falta de respeito

Cazuza cantou:
"Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia"... (Blues da Piedade, CAZUZA)
Nos últimos dias, assistimos a um verdadeiro mimetismo midiático por conta de um capítulo final de novela das nove. Não foi a primeira vez que aconteceu isso e nem será a última. Fato. O engraçado disso tudo foi o movimento dos Pseudo-Moralistas-Demagogos, também conhecidos como babacas, essa gente arrogante, pedante, careta e covarde (Ave Cazuza!) que se achou no direito de chamar todo mundo de burro e ignorante pelo simples de se empolgar com um “simples” programa de ENTRETENIMENTO. 
 
Acho uma piada infame negaiada encher as redes sociais, entre elas, o Facebook, com discursos de revolta pelo fato do povo ter se empolgado com a novela enquanto o Brasil está numa merda, blá blá blá (e lá vai discurso pseudo moralista-demagogo)... E você, nesse tempo, o que fez por nosso país? Heim?  

Engraçado, também, é que pelo futebol pode se empolgar, publicar bastante coisa nas redes sociais, perder o tempo e consequentemente deixar de clamar por melhorias no Brasil, não é? Torcer para futebol, com seus jogadores ganhando milhões, clubes cada vez mais ricos, brigas e mortes em estádios... definitivamente não é perda de tempo, ok!?? Enquanto isso, políticos roubam, índios e florestas morrem e o Brasil vai pro ralo abaixo... E você, que criticou o fulano que se eletrizou com o final da novela? Ah, sim, estava sentado no rabo e criticando os outros. 

E o respeito? Por onde anda? 

Caramba! Vamos combinar: futebol, novela, carnaval... É tudo festa, é tudo show, é tudo entretenimento. Faz parte da cultura do nosso país. Viva! Ainda bem que temos isso para nos divertir. Deixemos cada um fazer e curtir o que quiser. Sem críticas, sem ofensas. O Brasil já tem seus problemas muito antes de tudo isso existir (provavelmente antes dos nossos pais nascerem).

E vamos combinar outra coisa: se realmente quer mudar o país com discursos intelectualóides de quinta, a dica é esquecer qualquer coisa relacionada ao 'ópio' do povo (mas qualquer coisa mesmo). Esqueça o futebol, a novela, o carnaval, o barzinho... Arruma a mochila e vai à Brasília lutar, de fato, por melhorias no nosso país... Chega de demagogia barata. Aliás, chega de se achar superior aos outros “idiotas” por conta dos gostos e opções feitas pela grande massa.
Sejamos menos hipócritas!!!
"Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem..." 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Marcha do BASTA em Conselheiro Lafaiete

Jovens e outros representantes de minha estimada cidade, Conselheiro Lafaiete, também conhecida como Lafayork, estão promovendo a MARCHA DO BASTA, que acontece no dia 12 de maio, às 10h na Praça da Rodoviária. 
Infelizmente não estarei presente por estar, atualmente, morando em outro estado. Mas fica o meu apoio moral e irrestrito. Chega daquele ranço político que tanto nos envergonha e nada faz para a nossa cidade. Espero que muita gente esteja lá bradando aos quatro ventos um BASTA!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Carta aberta aos deputados de Minas

 

Olá, meu nome é Wesley Vieira, sou jornalista mineiro da cidade de Conselheiro Lafaiete e na noite de ontem (09/04), vi uma lamentável denúncia no programa CQC, exibido pela Band. Então, a assembléia do meu querido estado gasta 1 bilhão para criar bobagens como "lei do americano", lencinhos umedecidos para carrinhos de supermercado, mensagens "bonitinhas" nas assinaturas dos emails da assembléia, etc... Enquanto isso, como a própria repórter (Mônica Iozzi) disse, as estradas de Minas, as piores do Brasil, continuam a matar dezenas de famílias (não digo, pessoas, ok?). A própria BR 040 (trecho BH-Lafaiete) é um perigo. E vocês, realmente, acham que não há interesse no que a mídia diz, mas sim no que a população de Minas quer. Você tem certeza que nós, mineiros, queremos o "dia do americano"? Será que queremos lencinhos umedecidos para carrinhos de supermercados? E mensagens idiotas inseridas nos emails? Um bilhão retirado do meu bolso, meu Deus! Retirado do bolso da minha mãe (que morre de medo de viajar pelas estradas esburacadas). Retirado do bolso do meu irmão (professor, muito mal pago). Retirado do bolso dos meus amigos, familiares, desconhecidos... Todos mineiros, morrendo de vergonha do que foi exposto para todo o país. Mas a culpa é minha. A culpa é da minha mãe, do meu irmão, dos amigos, familiares, desconhecidos... todos mineiros, idiotas, que votaram em vocês, nobres pobres deputados.


Até agora, somente os deputados Alencar da Silveira Jr. do PDT, um dos entrevistados por Mônica Iozzi no CQC, e André Quintão do PT,  responderam a minha carta aberta. Abaixo:

Caro Weslei,
Infelizmente a minha fala no Programa foi editada de forma a ter aparecido somente a questão do Dia do Americano. De maneira séria, disse a ela que sou autor sim desse projeto, mas também que sou autor de outra centena de projetos e leis de grande relevância para o povo mineiro. Citei à repórter como exemplo a lei antifumo mineira e a lei da Ficha Limpa para ocupantes de cargos de direção nos órgãos públicos do Estado, ambas de minha autoria. Também sou autor do projeto que proíbe a cobrança de estacionamento em shoppings, do projeto que concede isenção fiscal que contratarem pais de família com mais de 40 anos, dos projetos que obrigam o Detran a constar no CRV o veículo casos de sinistro e o número do odômetro a cada transferência. Destaco, ainda, o projeto que isenta de taxas de renovação da carteira de habilitação para os condutores que não sofreram multas nos últimos 5 anos, o projeto que regulamenta a venda de bebidas nos estádios de futebol. Finalmente, ressalto a proposta que torna ilegal a cobrança de cheque caução nos hospitais e a proposta que prevê o uso racional da água em repartições públicas. Enfim, são inúmeros projetos que gostaria que avaliasse no meu site ou no site da ALMG.
É uma pena que eles editam a matéria para que fique sensacionalista. Afinal, vieram com uma pauta na mão e não lhes interessava ouvir o que temos, os inúmeros projetos apresentados na ALMG. Você, assim como eu, é jornalista e compreende melhor que a maioria como são produzidas essas matérias para gerar audiência. Por melhor que seja o CQC e o importante papel que tem em denuciar o que está errado, eles não agem com a parcialidade que deveriam ter. Não podemos dizer que aquelas edições obedecem aos critérios de objetividade e imparcialidade que aprendemos na faculdade.  De qualquer forma, respeito sua indignação diante de como foi produzida a matéria e, mais uma vez, convido a entrar no meu site ou no site da ALMG para conhecer melhor meu trabalho e meus projetos de lei. Estou às ordens em meu gabinete para qualquer esclarecimento. Pode ter certeza que em meus 25 anos de vida pública sempre pautei meu trabalho pela seriedade e compromisso com aqueles que me escolheram como representante.

Abraço,
Deputado Alencar da Silveira Jr.
2108-7119

Prezado Wesley,

Respeito sua opinião e me solidarizo com sua indignação, porém, quero ressaltar que minha trajetória parlamentar, em terceiro mandato na Assembleia Legislativa, tem sido pautada por um trabalho sério e comprometido com a população do Estado. Atualmente, presido a Comissão de Participação Popular, que ajudei a implantar em 2003, e que é referência como importante canal entre a sociedade civil e o poder legislativo. Sou também membro efetivo da Comissão de Constituição e Justiça, coordenador da Frente Parlamentar de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente e representante do Legislativo no Fórum Estadual Lixo e Cidadania.
Durante os dois últimos mandatos e neste terceiro, o projeto ético-político que orienta todas as práticas do nosso mandato sempre esteve atento ao diálogo com movimentos, entidades, sociedade para ampliar os direitos sociais e contribuir para que nosso Estado acompanhe o que tem sido feito pelo Governo Federal no Brasil pelo crescimento econômico com mais justiça social. Neste sentido, no ano passado, fui o autor do requerimento para a realização do Seminário Legislativo Pobreza e Desigualdade que coordenei e movimentou 5 mil pessoas para debater e propor políticas para erradicar a pobreza em Minas Gerais.
Os ganhos foram enormes para a população e alguns dos resultados foram a aprovação do Proposta de Emenda Constitucional que prioriza a erradicação da pobreza na Constituição: a antecipação da universalização do Piso Mineiro da Assistência Social, que tinha sua implantação prevista para 2014 e agora, já a partir deste ano, atingirá 822 municípios com um total de R$ 36 milhões. Outro resultado importantíssimo foram as emendas populares ao Plano Plurianual de Ação Governamental, que permitiram ações em setores como segurança alimentar, garantia dos direitos da criança e do adolescente, catadores de materiais recicláveis, agricultura familiar, economia popular solidária, entre outras.
Acredito que a transparência e o controle social são as principais armas para o fortalecimento da democracia e pela aprovação de políticas realmente necessárias para a população. Por isso, quero convidá-lo para visitar o site do mandato André Quintão (www.andrequintao.com.br), bem como participar do processo de trabalho da Assembleia Legislativa.

Um abraço,

André Quintão
Deputado Estadual PT/MG

segunda-feira, 26 de março de 2012

Eu Prefiro Melão, o livro

Com muita honra e orgulho, eu, na forma do E Eu Não Sei?, venho parabenizar o amigo Vitor de Oliveira, roteirista da TV Globo (O Astro, 2011) e dono do blog Eu Prefiro Melão, o qual eu sou colaborador constante, pelo lançamento do livro EU PREFIRO MELÃO - MELHORES MOMENTOS DE UM BLOG TELEVISIVO.


Gente bonita, elegante, sincera e famosa também prefere prestigiar o Melão.

E para quem deseja degustar esse delicioso Melão, o livro já se encontra à venda nas melhores livrarias desse nosso Brasil. 
Esse sucesso é apenas o começo. Parabéns amigo!



EU PREFIRO MELÃO – MELHORES MOMENTOS DE UM BLOG TELEVISIVO, de Vitor de Oliveira
138 páginas
Gênero: Crônicas
Formato: 14x21cm
Preço: R$ 28,00
ISBN: 978-85-65114-06-6
Já disponível para compra nas melhores livrarias virtuais
“Que bom ver um jovem com tanto conhecimento de teledramaturgia brasileira.” – Betty Faria

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Trechos de "Pega Rapaz"

Depois de muito tempo sem postagens, venho me redimir perante aos leitores do E Eu Não Sei? e agora (sim, somente agora), em pleno final de janeiro de 2012, transcrevo para o blog a abertura e o fecho de um roteiro de minha autoria. Quem me conhece, sabe que sou aspirante a roteirista. No famoso blog Eu Prefiro Melão, do meu amigo Vitor de Oliveira (um dos colaboradores da novela "O Astro"), o qual sou colaborador e chefe da sucursal de Minas, já apresentei algumas cenas deste mesmo capítulo. Trata-se do primeiro capítulo de "Pega Rapaz", uma sinopse de novela que criei tendo o pobre Gil Cantuária como protagonista. Aqui, apresento as primeiras cenas onde, simbolicamente) ligo o anti-herói com a  anti-mocinha, Maria Olivia, a Marol. Para aguçar a curiosidade de vocês, também vai a penúltima cena deixando, claro, um gancho para o capítulo seguinte. Santa Janete!!!
Com vocês, "Pega Rapaz":

CENA 1. BEIRA DE ESTRADA. EXTERIOR. DIA.
A primeira imagem é de uma linda foto do rosto de Marol com os cabelos ao vento numa propaganda do STUDIO LEOA. Outras fotos de Marol se sucedem e só agora a CAM mostra Gil que folheia uma revista de cabelos. Evidenciar a marca LEOA. Ele guarda a revista no bolso. Plano Geral. CAM mostra Gil naquela imensidão de montanhas que circundam a região como se ele estivesse só. CAM volta a focalizá-lo e agora ele pega uma foto do bolso e observa Bruna. Panorâmica. O motorista chama os passageiros fora de áudio que entram no ônibus que dá partida. Detalhe da placa: BELO HORIZONTE A 30 KM. PREPARE-SE PARA FORTES EMOÇÕES.
Sonoplastia: música marcante que deve seguir até o início da cena 3.
CORTA PARA:
(...)


CENA 3. FLASHBACK / HOSPITAL DE CATAS ALTAS. INTERIOR. DIA.
Um efeito mostra que é flashback. Gil conversa com o médico ao lado da cama onde está Bruna, muito fraca, brincando com uma boneca.
GIL — Isso tem cura?
MÉDICO — Doença rara. Sua esposa teve a mesma doença.
Letreiro com nome do personagem: GIL.
GIL — Mas eu quero saber se minha filha vai ficar bem? (T) O que eu faço? Eu não posso perder ela/
MÉDICO — Gil, você não vai perder a sua filha. Calma. Não há doença que não possa ser tratada. (T) Bom, há um hospital especializado nesse tipo de doença. Ela pode ficar bem se fazer o tratamento/
GIL — (Desesperado) Onde? Em BH? São Paulo?
O médico hesita em falar. Gil está desesperado. Eles olham a menina que esta alheia com a boneca.
MÉDICO — (Direto) Em Boston. Apenas um hospital particular nos Estados Unidos possui recursos para esse tipo de doença.
GIL — (Atônito) Hospital particular? Boston?
Na expressão de Gil,
CORTA RÁPIDO PARA:
(...)

CENA 44. CASEBRE VELHO. INTERIOR. DIA.

Muito ritmo. João empurra Alexia e dá uma coronhada na cabeça de Gil, que cai no chão sangrando. Os sons dos carros da polícia aumentam.
JOÃO — Burro. Se você não tivesse entrado na rua da Leoa, a gente não teria se metido nessa. A polícia tá perto. É o fim.
GIL — (Desesperado) Foi você que me meteu nessa encrenca. Eu não sou marginal, cara. Vai me tirar dessa.
Alexia continua calada e analisa Gil.
Insert da cena 35, Chica falando: “Será que existe um homem que tenha capacidade de fazer Charlene feliz?”.
JOÃO — Eu mato essa perua.
Ele ameaça Alexia com um revólver. Muita tensão.
ALEXIA — Vão pra cadeia na mesma hora. Sou famosa.
JOÃO — Tô sacando. Essa daí é aquela gatona dos comerciais de shampoo.
GIL — Não vai fazer merda.
ALEXIA — Eu posso ajudar vocês. Se me deixarem escapar, eu juro que vão se dar bem. Aliás, super bem.
Alexia olha os galões que estão no local.
CORTA RÁPIDO PARA:

Quer saber o resto? Me envie um email.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Eu e O Astro

Tanto tempo sem postar...

A preguiça é uma desgraça, já dizia o poeta!

Mas não poderia deixar de falar sobre o mais novo "velho" sucesso da nossa televisão: O ASTRO, novela de Janete Clair que ganha nova roupagem nas mãos do sensacional Alcides Nogueira, meu amigo Tide e Geraldo Carneiro. Além disso, essa novela é especial pois marca a estréia do meu amigo Vitor como colaborador. A vitória dele é a vitória de todos aqueles que almejam essa carreira. E pensar que no ano passado estavámos na mesma luta... Parabéns amigo!

Abaixo, algumas fotos da festa de lançamento que este "blogueiro" (?) teve a honra e o prazer de participar junto com todos os astros globais.Entre Vitor e Tarcísio, colaboradores de O Astro. Abaixo, com Tide, o grande mestre.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Bolsonaro, o humorista do Brasil

Jair Bolsonaro ou simplesmente Bolsonaro... Sobrenome sonoro e pomposo. Parece nome de artista (e quem disse que não é?). Embora eu confesse que no meu universo particular, jamais escutei esse nome. Se ouvi, foi em algum noticiário e passou batido... Alienado, eu?? Acho que não, ainda mais se tratando de um político carioca. Segundo o wikipedia, Jair Bolsonaro é militar e deputado federal do estado do Rio de Janeiro (pobres cariocas), sendo eleito pela sexta lesgilatura na Câmara dos Deputados do Brasil (peraí, então os cariocas o elegeram seis vezes??? É isso mesmo Rio?). Além disso, ele representa a extrema direita e apoia os governos militares do Brasil.

Tudo ia bem até que numa bela segunda-feira, estava eu despretensioamente no meu quarto tomando os meus bons drinques quando "ouvi" pela televisão um monte de gente fazendo perguntas prum sujeito que respondia à questões polêmicas de nossa sociedade com um certo destempero. Achei que tratava-se de um novo humorista que tinha como tema praticar o INpoliticamente incorreto - em tempos tão caretas como os nossos. Fui ver a cara do sujeito e lá estava o tal do Jair Bolsonaro com toda pinta de artista. Ou humorista, se preferir.

Entre outras besteiras Bolsonaro defendeu o uso de armas nucleares no país, disse ser favorável à volta do terrível regime militar, atacou os homossexuais, cotistas e ao ser questionado pela cantora Preta Gil sobre um possível relacionamento entre seu filho e uma negra, respondeu: "Ô, Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o seu.”

No dia seguinte, Bolsonaro virou destaque da mídia, ou como dizem os acadêmicos, virou tema de mimetismo midiático. Só então caiu a ficha e eu pude constatar que aquele humorista que respondia asneiras na televisão não era humorista, e sim um legítimo político brasileiro.

Agora Bolsonaro tenta se defender "apenas" da acusação de racismo pela resposta dada à Preta Gil, pois segundo ele, não tinha entendido a pergunta que lhe foi dirigida. Ok. Vamos fingir que acreditamos nisso e que realmente ele não entendeu a pergunta, afinal Bolsonaro finge que é político, mas é um artista, ou melhor, um humorista. Vamos fingir que achamos graça nas suas embaraçosas palhaçadas.

domingo, 3 de abril de 2011

É?

Na última semana de março de 2011, vimos dois casos de contrastes sobre a saúde no Brasil. Por um lado, assistimos ao final do comovente drama do ex-vice-presidente da República, José de Alencar, que após 14 anos de luta contra o câncer, morreu deixando um exemplo de força e perseverança a todos que passam pelo mesmo problema.

Durante todo o tempo de enfermidade, Alencar teve o apoio dos melhores profissionais da medicina oncológica do país, quiçá do mundo. Foram inúmeros cânceres, muitas horas de quimioterapia e dezenas de cirúrgias para conter o avanço da terrível doença. Cercado de cuidados que a posição social e o dinheiro lhe conferiam, Alencar teve acesso à tratamentos caríssimos, entre eles uma medicação ainda experimental no Canadá. A força e determinação que o vice-presidente passava em entrevistas, mesmo nos momentos difíceis, causava admiração no povo. “José de Alencar é forte!”, bradavam muitos. “É um homem porreta pra aguentar tanto câncer”, afirmavam outros.

Alencar morreu no dia 29 de março de 2011. Homenagens em profusões foram feitas ao redor do Brasil. Lula, o ex-presidente chorou pela morte do companheiro. É. E José de Alencar virou herói, símbolo de força e superação contra o câncer.

Do outro lado, já nesse início de abril, especificamente no dia da mentira, vimos uma cena lamentável exibida no programa “Globo Repórter”. Em um hospital de Belém do Pará, uma médica pediatra é chamada para atender uma criança de apenas um ano e três meses que está em observação há quatro dias na precária enfermaria e naquele exato momento tem um quadro de piora. A mãe da criança chora desesperadamente e a repórter, Graziela Azevedo, tenta ampará-la. A menina, de nome Ruth, agoniza em frente às câmeras enquanto a equipe do hospital é mobilizada a IMPROVISAR uma UTI. A reportagem revela que o teto da Unidade de Terapia Intensiva tinha desabado na semana anterior e a outra sala para onde alguns pacientes foram transferidos estava condenada.

Desordem total. “Não tem oxigênio, não tem nada montado. A sala está vazia. E eu estou vendo a criança morrer aqui na minha frente sem poder fazer nada. Eu estou esperando, fico impotente”, diz a médica constrangida e emputecida com a caótica situação.


O que a morte do ex-vice-presidente José de Alencar tem em comum com a morte da menina Ruth? Além da própria morte, mais nada.

Alencar teve dinheiro e posição privilegiada para viver quase 80 anos de vida digna. Fez fortuna, formou família e foi um bom vice-presidente. Sim, ele sofreu com os cânceres e consequentemente a sua família partilhou dessa dor. Ele sempre disse que por causa da doença tinha se tornado uma pessoa melhor. “Há males que vem pro bem?”. Em Brasília, São Paulo ou em países de primeiro mundo, ele teve todos os cuidados necessários para uma viver melhor. Ele queria “a cura” e ao seu redor tudo foi disponibilizado para que isso fosse possível. Alencar tinha dinheiro e poder.

A menina Ruth, moradora de alguma comunidade pobre lá de Belém do Pará, não teve nada disso. Agonizou em rede nacional até morrer... Sua mãe chorou copiosamente. A repórter se sensibilizou e nós, brasileiros, passivos diante daquela cena, assistíamos a tudo impotentes. Tudo muito triste e muito constrangedor.

Além de Ruth, o programa exibiu outros dramas como o da jovem que percorreu três hospitais sem obter atendimento e acabou morrendo com um aneurisma cerebral. Outro problema constatado foi a péssima atenção que os médicos do SUS prestavam aos pobres pacientes. Arrogantes e prepotentes ao extremo, muitos profissionais eram coniventes com a precariedade da saúde pública. De um lado o luxo e de outro lado o lixo. Contrastes que só o Brasil pode oferecer.


Confesso que os políticos brasileiros me enojam cada vez mais. Bolsonaros, Tiriricas, Malufs... Todos os podres no poder. Brasília é um circo e os palhaços somo nós?

Acho que está na hora de nós, brasileiros nos unirmos, como na década de 60 e irmos à luta para acabar com essa palhaçada que está instalada em Brasília. Chega! Isso tem que acabar ou o nosso país vai pela descarga como na abertura da novela “Deus nos Acuda”.

É. E José de Alencar virou herói. É. E a menina Ruth virou apenas menos uma. Quem mandou ela nascer pobre no Brasil?

E cantemos com o eterno Gonzaguinha: "É... a gente não tem cara de panaca, a gente não jeito de babaca, a gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela"...

sábado, 4 de dezembro de 2010

Trechos de um certo TCC sobre Vale Tudo

A reprise da novela "Vale Tudo" no canal Viva é um fenômeno de repercussão. Fato. Confesso que não esperava o contrário, pois trata-se de um trabalho excelente que foi e ainda é o retrato do Brasil. Um pouco antes de saber que a novela voltaria numa TV a cabo, fiz minha monografia sobre esse sucesso e acho que fui muito feliz com o tema escolhido, pois falar de um produto de entretenimento que gera grandes discussões até hoje, é um privilégio. A seguir, trechos de um capítulo onde falo sobre o nascimento desse grande sucesso.

A luta pela sobrevivência num país de terceiro mundo como o Brasil, virou tema comum a maioria das novelas na década de 80. Novelas que revelaram as inúmeras e possíveis artimanhas que o brasileiro precisava fazer para sobreviver naquele novo contexto econômico que tanto desesperava o povo. De posse desse argumento, os autores Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères se juntaram para escrever “Vale Tudo”, uma telenovela que reuniu as nuances do velho folhetim com um duro retrato do Brasil movido pela corrupção, falta de ética e moral naquele final da década. Com essa história, os autores fizeram uma pergunta agressiva que ainda permeia a nossa sociedade e atualmente, com a reprise da novela no canal Viva (no ar, de segunda à sexta, 0h45), se torna mais latente aos nossos ouvidos e nos faz constatar que o país não mudou. E aí, vale a pena ser honesto no Brasil?

A idéia de "Vale Tudo" nasceu de uma discussão familiar, quando o irmão do autor Gilberto Braga, tomado pela euforia da bebida alcoólica, criticou o seu padrinho por não ter sido corrupto enquanto atuava como delegado de polícia. A partir desse ponto de partida, o autor buscou inspiração na famosa “lei de Gérson” para a elaboração da sinopse. Esta lei foi inspirada no jogador de futebol de mesmo nome e resume o espírito oportunista, aproveitador, individualista e predatório que permeia o Brasil.

Segundo o diretor e produtor Daniel Filho no livro "O circo eletrônico", convencê-lo de transformar uma crítica social em telenovela foi de difícil entendimento, sobretudo pelo conceito que Gilberto queria imprimir à narrativa. Assim como ele não conseguia identificar o tema proposto na sinopse, Daniel achava que o telespectador não entenderia o mote central da história. Contudo, Gilberto não desistiu de sua proposta e, para não ficar sobrecarregado, convidou o autor Aguinaldo Silva, que vinha de sucessos como "Roque Santeiro" e "O Outro", para ajudá-lo nas tramas ditas “populares”. Além dele, a colaboradora Leonor Bassères, com sua personalidade conciliadora, foi alçada como co-autora, depois de auxiliar Gilberto em trabalhos anteriores como "Louco Amor" e "Corpo a Corpo". Assim surgiu “Vale Tudo”; uma novela que conta a história de uma guia turística em Foz do Iguaçu que, com a morte do pai, herda uma casa. Raquel tem uma filha ambiciosa, Maria de Fátima, que pretende subir na vida a qualquer custo e sente vergonha da simplicidade de sua mãe. Iludida com uma vida glamourosa, Maria de Fátima vende a casa e deixa a mãe na miséria. De acordo com Daniel, na primeira sinopse, a filha venderia a casa por volta do capítulo 50. Argumentando que a novela não atingiria o seu objetivo, que era mostrar um paralelo entre ética e corrupção, Daniel sugeriu começar a trama com esse mote central. A partir desse ponto, a novela revela um debate ético representado pela corrupção que assola o país, através de Maria de Fátima, em contraponto à honestidade de Raquel. Em linhas subliminares, os autores perguntavam ao telespectador se num país governado por líderes corruptos, recheado de crimes do colarinho branco e pessoas capazes de tudo por dinheiro, valia a pena ser honesto.

A missão de “Vale Tudo” era entreter, fazendo uma caricatura do colapso ético do país, misturando o velho folhetim com os temas críticos e realistas tão presentes na vida dos brasileiros. O alicerce principal da novela se baseava na reunião de personagens capazes de tudo para subir na vida tais como trair a própria mãe, subornar, chantagear, remeter dinheiro ilegalmente para o exterior, sonegar impostos e etc.

Na construção dos personagens que compuseram a trama central, praticamente todos foram delineados com base na canalhice, com exceção da heroína Raquel e de Helena, uma artista plástica alcoólatra. De resto, todos permeavam a mentira e a falta de visão ética sobre a sociedade. Se não bastasse isso, os personagens possuiam o instinto de prejudicar o próximo, e colocavam a “lei de Gérson” ao pé da letra, ou seja, tiravam vantagem em tudo.

Ao tornar-se parte de uma esfera pública emergente, “Vale Tudo” colocou a ironia e o sarcasmo como elementos principais de sua narrativa. Além disso, após um início eufórico da Nova República em 1985, a trama fez alusão à decepção com que a sociedade se manteve, depois de três anos do novo regime. Esther Hamburger em seu livro "O Brasil antenado", frisa que a atualização de ansiedades quanto ao futuro do país levantou críticas sobre o desdobramento de eventos, sugerindo que, se a própria política se tornou corrupta, o título “Vale Tudo” reforçava essa versão. Aliás, o ótimo título resumiu o verdadeiro caráter do brasileiro, além, é claro, de aludir a um esporte de luta corporal, onde vencem somente os mais fortes. As cores da bandeira também são sugeridas no logotipo e reforçam o nível de discussão que a novela fez em sua trajetória. Os desníveis da palavra “tudo”, podem fazer menção as desigualdades, como também ao baixo nível com que os representantes do governo (e o povo, por que não?) são vistos no campo político e social.

Gilberto conta: “Vale Tudo” era meu título de trabalho, e eu estava procurando um título definitivo. É o nome de uma luta. Eu queria, na verdade, algum título como Pátria Minha, que só me ocorreu bem depois. Ou Pátria Amada, mas este era o filme da Tizuca. Quem me convenceu que meu título de trabalho devia ser o definitivo foi o Boni. Eu não queria porque achava óbvio. E logo vi que o Boni - como sempre - tinha toda a razão, foi um ótimo título.”

*Esse texto faz parte da minha monografia "A ética e a honestidade através da telenovela